Danga é uma vira-lata que sorri. Desde bem pequena, mostra os dentes enquanto torce as ancas e abana o rabo peludo querendo carinho de quem chega e fala miado com ela. O nome vem de como a sua dona, quando criança, chamava as mamadeiras. Danga é resultado de uma mistura esquisita de raças, tão improvável que ninguém lembra mais para explicar. Nunca foi bonita, mas sua simpatia não tem igual. Fora o sorriso. Mas no último Natal não sorriu para os convidados. Andava devagarzinho pelo pátio, cansada, tetas inchadas de leite.
Gravidez psicológica. E o filho é um tomate. Por deus.
Um grande tomate emborrachado que, quando apertado, solta um inhéon – para desespero da Danga, que, acreditamos(?), pensa (??) se tratar de um choro (???). Alguém aperta o tomate, inhéon!, e a Danga se lamenta, ain ain ain, pedindo o filho de volta. Então, já deitadinha no sofá, alinha com o focinho o tomate entre as perninhas, afastando uma delas para dar mais lugar junto ao ventre. Quer “dar de mamá”. E ai que a Keka – sua filha real, com pêlos e au-aus, nada de inhéon, já crescida e ela sim fruto de uma gravidez verdadeira – tentasse um gole do leite. Era pro tomate, só pra ele.
29 dezembro 2005
08 dezembro 2005
DNA
Sensibilidade é hereditário? A seguir, frase da filha de uma amiga muito especial: alguém que eu primeiro admirei como profissional, depois como pessoa e que agora integra um seleto grupo para o qual minha reverência não tem mais início ou fim. A menina não tem dois anos ainda:
- Mãe, o mar molha o horizonte?
Genial.
- Mãe, o mar molha o horizonte?
Genial.
30 novembro 2005
12 novembro 2005
O esmalte da mamãe
Da infância, tenho poucas imagens da mulher que era minha mãe. Ou da mulher vaidosa que ela deveria ser. Lembro dela colocando perfume antes de dormir. A interpretação de que ela estava indo se deitar como mulher é mais recente - meu pai já a esperava -, mas lembro que o som do spray me dizia alguma coisa. Não interessa o que aconteceria depois. Me intrigava essa preparação.
Outra era a cena com o esmalte. Com o vidrinho daquela tinta de cheiro forte. Minha mãe dona de casa terminava os afazeres domésticos e, no fim da tarde, cruzava a sala esfregando, girando o vidrinho entre as palmas das mãos. O vaivém fazia um barulhinho dse dois metais se tocando, num ritmo que ela controlava. Às vezes, era rápido, ela tinha pressa, e logo sentava-se à ponta da mesa da cozinha para pincelar a ponta dos dedos. Um agradinho quase diário à mulher vaidosa, convocando-a antes que meu pai chegasse.
E eu cresci achando que os vidrinhos de esmalte faziam barulho ao serem sacudidos. Eu desconfiava que não fazia sentido. Eles não tinham por que trazer no seu interior uma esfera metálica. E ainda que viessem com ela, a pastosidade do produto impediria que se chocasse com as paredes de vidro. Ainda assim, lembro da vez em que segurei um esmalte e imitei minha mãe, rolando-o por entre minhas palmas. Não houve o barulho. Só o roçar desajeitado de mãos ainda pequenas. E pensei: só minha mãe consegue, orgulhosa dela. Querendo um dia ser ela, capaz de tirar som de um esmalte.
Não sei exatamente quando me dei conta de que o barulho era provocado pelo roçar do vidrinho com a aliança de casamento que ela trazia no dedo. Não sei exatamente se queria essa explicação. Preferia pensar que era um poder exclusivo de minha mãe, da mulher que era a minha mãe.
Outra era a cena com o esmalte. Com o vidrinho daquela tinta de cheiro forte. Minha mãe dona de casa terminava os afazeres domésticos e, no fim da tarde, cruzava a sala esfregando, girando o vidrinho entre as palmas das mãos. O vaivém fazia um barulhinho dse dois metais se tocando, num ritmo que ela controlava. Às vezes, era rápido, ela tinha pressa, e logo sentava-se à ponta da mesa da cozinha para pincelar a ponta dos dedos. Um agradinho quase diário à mulher vaidosa, convocando-a antes que meu pai chegasse.
E eu cresci achando que os vidrinhos de esmalte faziam barulho ao serem sacudidos. Eu desconfiava que não fazia sentido. Eles não tinham por que trazer no seu interior uma esfera metálica. E ainda que viessem com ela, a pastosidade do produto impediria que se chocasse com as paredes de vidro. Ainda assim, lembro da vez em que segurei um esmalte e imitei minha mãe, rolando-o por entre minhas palmas. Não houve o barulho. Só o roçar desajeitado de mãos ainda pequenas. E pensei: só minha mãe consegue, orgulhosa dela. Querendo um dia ser ela, capaz de tirar som de um esmalte.
Não sei exatamente quando me dei conta de que o barulho era provocado pelo roçar do vidrinho com a aliança de casamento que ela trazia no dedo. Não sei exatamente se queria essa explicação. Preferia pensar que era um poder exclusivo de minha mãe, da mulher que era a minha mãe.
9h30
Nove e trinta é um horário tão bonitinho para acordar, né?
- Que horas tu acordou?
- Nove e meia.
Que meigo.
Talvez porque não possamos sair da cama se lamentando: é um horário digno, tende a fechar um tempo suficiente de sono mesmo que se tenha aproveitado bem a noite/madrugada.
Seis, sete, até as oito é proletário demais, espartano. Sem poesia. Então, com poesia, às nove e meia deslizamos da cama. Não saltamos dela, esbaforidos. 9h30min deve ser o horário mundial da espreguiçada, do bocejo, do sorriso monalisa ainda de olhos fechados. É o horário do despertar retratado nas propagandas do leite molico, sabe? Clean. E o em torno de 9h é perfeito até fisiologicamente, já li sobre isso. Parece que depois disso, o corpo "entende" que pode enfiar o pé na jaca (ou a cabeça no travesseiro) e aciona mecanismos do tipo 'cara amassada' o dia inteiro, ainda que você se levante ao meio-dia (ou justamente por isso).
Nove e meia, então, é o limite. Não é 10h. A partir daí, levantamos com culpa. Se não, corremos o risco de alguém nos tocar ela.
- Que horas tu acordou?
- Dez e pouco.
- Puxa, quem dera! Essa hora eu já estava cansado de estar de pé - acusa o outro.
- Que horas tu acordou?
- Nove e meia.
Que meigo.
Talvez porque não possamos sair da cama se lamentando: é um horário digno, tende a fechar um tempo suficiente de sono mesmo que se tenha aproveitado bem a noite/madrugada.
Seis, sete, até as oito é proletário demais, espartano. Sem poesia. Então, com poesia, às nove e meia deslizamos da cama. Não saltamos dela, esbaforidos. 9h30min deve ser o horário mundial da espreguiçada, do bocejo, do sorriso monalisa ainda de olhos fechados. É o horário do despertar retratado nas propagandas do leite molico, sabe? Clean. E o em torno de 9h é perfeito até fisiologicamente, já li sobre isso. Parece que depois disso, o corpo "entende" que pode enfiar o pé na jaca (ou a cabeça no travesseiro) e aciona mecanismos do tipo 'cara amassada' o dia inteiro, ainda que você se levante ao meio-dia (ou justamente por isso).
Nove e meia, então, é o limite. Não é 10h. A partir daí, levantamos com culpa. Se não, corremos o risco de alguém nos tocar ela.
- Que horas tu acordou?
- Dez e pouco.
- Puxa, quem dera! Essa hora eu já estava cansado de estar de pé - acusa o outro.
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