26 outubro 2006

Que susto

Dia desses um colega de trabalho olhou bem pra mim, sério - ainda que eu estivesse de lado, pude perceber seus olhos presos em mim, como fazemos quando queremos dizer para alguém algo que nos parece verdade -, então, olhou bem pra mim, daquele jeito que exige que a gente retribua o olhar, o gesto solene, e disse:
- Loraine, tu parece que não faz falta, mas tu faz.
Olhei pra ele, ele continuava me olhando, sério. Por segundos, fiquei surpresa com a frase, que me bateu como uma verdade vinda não sei de onde, sem que eu nem imagine por que, nem saiba explicar o sentido ou o efeito dela - e conseqüentemente qual seria a função no mundo de uma pessoa assim, no caso eu. Em seguida voltei a olhar para o lado, como se ele não tivesse dito nada de importante.
Eu estou mudando de área outra vez no trabalho, é a isso que ele se refere na frase, porque deixaremos de ser colegas diretos.
E a tarde seguiu, os dias seguiram, e eu ignorei - tenho ignorado - o efeito da frase, como a gente faz com inúmeras coisas que a gente não quer entender na vida. Ou acha que não quer. Ou acha que não precisa entender, porque não está vinculado com nada que nos é imediatamente vital.
Mas eu sei que não vou esquecer essa frase.
E, se ela for uma verdade, eu não sei se quero continuar assim. Eu não sei se posso/sou capaz de mudar essa minha condição. Não sei se precisa mudar. Eu posso apenas ser assim?

08 outubro 2006

Somos quem podemos ser

“Quem Somos Nós?” não é um bom filme nem um bom documentário, embora seja um pouco de ambos. Por mais generoso que o espectador seja, nenhum caminho convencional leva ao adjetivo bom. Mas o filme tem feito um relativo sucesso. Como explicar? Ficou (se ainda não está) um tempão em cartaz, gerou programas de debate, as pessoas comentam, gerou marola – como a gente costuma dizer no jornalismo. Os cadernos de variedades ignoraram solenemente. Não é um filme para as massas. Como poderia ser para as massas um filme sobre física quântica? Até por isso, repito: um filme sobre física quântica (sim! física quântica) tem dado o que falar. E pensar. Você viu?
Resumindo bem, dá para dizer o seguinte: o filme mostra, com depoimentos/opiniões/argumentos de físicos e neurocientistas, que a realidade é uma construção mental. Vivemos o que somos capazes de imaginar, pensar e, logo, acreditar. A rigor, criamos a vida que conseguimos criar. Ou: que grande parte dos problemas é fruto de como os percebemos. Eu acho perturbador: transferir para nós mesmos a responsabilidade por nossa felicidade ou desgraça é terrível. É inaceitável, na grande maioria das vezes. Sempre buscamos explicações fora da gente. Assim o pensamento ocidental ensinou.
Na verdade, não sei o que pensar sobre o filme, que assisti há algum tempo já. Mas tenho a tendência de acreditar no que ele mostra. Acho que ele já vale só por mostrar um monte de gente nos cutucando com a possibilidade de... “Somos quem podemos ser/ Sonhos que podemos ter” - Engenheiros do Hawai, lembra?.
Eu lembrei de mencionar o filme aqui porque li uma frase no editorial da última Vida Simples. Lá pelas tantas, o Leandro, editor da revista, disse: “Porque o debate gera luz”. Ele estava falando das reuniões de pauta, de como surgem as grandes sacadas da revista, mas eu lembrei direto da personagem principal do filme. Ela é muda. Sua vida é cinza. Sua vida não existe, ela é triste. Sem luz. Claro que ela vai dar uma virada. Está no filme para exemplificar os argumentos dos físicos e dos neurocientistas. Mas a mudez é um detalhe interessante. Quem me conhece até imagina por que acho interessante.

Mas não, não é porque eu falo pouco que esse detalhe me chama a atenção. Também é por isso, mas não é só por isso.
Tá bem... É por isso.
Mas é que tem muita gente que fala, fala, fala e não gera luz – seja lá o que isso signifique.
Ok, só tô desviando o assunto... :)

23 setembro 2006

Tô com a Cicarelli

Quer saber? Tô com a Cicarelli ou com quem quer que seja a guria aquela do vídeo.
Eu não tinha imaginado exatamente tudo aquilo, mas, antes mesmo dessa fofocada toda estourar, eu já tinha pensado que não se pode morrer sem um dia dar e ganhar um beijo dentro do mar. Ok, minha imaginação é um pouco mais pueril ou romântica, mas sabe-se lá o que vem depois de um beijo, né?

Certo, sabemos o que pode vir depois de um beijo. Então, tô com a Cicarelli. Com ou sem as algas.

Eu acho que as pessoas deviam é parar para pensar o que faz elas gostarem tanto de ver o vídeo e comentar a vida dos outros. Aí, tu vais dizer que a guria estava num lugar público e tal, que praia deserta só existe em filme tipo Lagoa Azul etc... Mas se há uma coisa que foi pro espaço é o limite (espacial mesmo) do privado e do público, vai dizer que não? Se tudo tivesse sido filmado na piscina do jardim cercado com altos muros da casa dela, todo mundo ia ver igual. E comentar e julgar - sem questionar sua curiosidade ou a motivação da criatura que conseguiu as cenas. Que cansaço.

10 setembro 2006

Segura a mão da criança!


Estive no lugar certo e na hora certa ontem e hoje. Sesi Bonecos do Brasil, uma das manifestações populares mais legais que já vi. Com certeza, a mais legal do ano em Porto Alegre. Na Redenção, pairou o sotaque do nordeste. O povo fez sua parte e tomou o parque para receber os mamulengos. Música, desfile, apresentações de teatro, shows, exposição, bolo de cenoura, de couve, pipoca, churrasquinho, pastel e quentão. Festa feita. Muito, mas muito legal. Que bom que eu vi tudo de perto. Que pena se você perdeu.

09 setembro 2006

O nulo e os burros

Entendo perfeitamente os argumentos de quem condena o voto nulo. De fato, alguém terá de ser eleito, diz a legislação. Aqueles que apontam o voto nulo como burro estão raciocinando dentro das regras do jogo.
Mas só um pouquinho, peralá. Vamos tentar dar um passo para trás e olhar o todo.
Os últimos acontecimentos políticos mostraram que o respeito às regras do jogo não orienta exatamente a conduta do caras que ganham o poder. Por que que tamanha devoção às regras do jogo vale só no momento em que o eleitor tem chance de agir? Ainda que nada das sacanagens conhecidas tivesse ocorrido, se o eleitor prefere o nulo, alguma coisa ele está querendo dizer.
Acho que falta um pouco de sensibilidade para olhar a coisa mais pelo todo, a despeito das regras eleitorais. Se o eleitor sabe que não vai mudar nada - pelo menos naquele pleito - votando nulo, e ainda assim quer anular, pôxa, tem algo errado aí. Se os defensores do voto não-nulo (e os políticos) não sacam isso, de que lado está a burrice? As regras do jogo não podem se sobrepor ao fim em si.

Bem juntinhas

Bem juntinhas
eu e a Búio