Não era o meio da noite ainda, mas eu já estava dormindo. Havia até sonhado, apesar de adormecido sem tranqüilidade. Pouco depois da 1h, fui acordada por eles.
Eu tinha ido dormir triste, chateada, acho até que fechei os olhos delicadamente, sem apertar as pálpebras. Acho que senti a pocinha de lágrimas ir até a beira, mas segurei, favorecida pela posição – de barriga para cima, nuca presa ao travesseiro, cabeça sem virar para o lado, o que faria esvaziar meus olhos (e permitir que se enchessem de novo).
Então, eles me acordaram. Nesse momento, lembrei de procurar em mim as lágrimas, mas os olhos estavam secos. Elas se foram – sem que eu as visse, ainda bem. No silêncio da rua, da minha casa, o som das vozes deles ganhava uma altura constrangedora. É como se estivessem na sala do meu apartamento. Mais: pareciam estar ali ao lado da minha cama. Fechei os olhos e virei para o lado, como que querendo deixá-los à vontade.
Desisto da discrição e prendo minha atenção no que dizem. Não é possível entender. Afasto a orelha do travesseiro, mas nem com os dois ouvidos a postos consigo entender por que discutem. É um casal, mas agora só ela fala. Há alguns minutos, é só a mulher quem fala. Grita. Chora. Sua voz às vezes vira um rosnar, sai da garganta, o final das palavras fica perdido em algum lugar. Já posso imaginar o rosto inflamado, lavado pelas lágrimas. O homem não falará mais até o final. Eu, pelo menos – talvez a rua inteira, o bairro inteiro –, não o escuto. E ela berra. Recupera o fôlego, segura o choro e, só nessas vezes, posso ouvir que fala em dinheiro, quantias, argumenta com datas.
Dizem que mulher é assim: guarda tudo, lembra de tudo para ser despejado na hora da discussão. Os homens não. Um cara que conheço, é verdade isso, leva na carteira um papelzinho branco, pequeno. Em letra miúda, de um lado ele lista todos os seus 'bens' que estão na casa da namorada; do outro lado, anota palavras-chave de situações que o magoaram e ele relevou ou algo assim; tudo para não correr o risco de esquecer na hora da briga derradeira, a que se desenhar como ponto final da relação.
Na minha cama, fiquei pensando como aquele casal que, de seu quarto (provavelmente), espalhava mágoa janela afora, enchendo a noite da rua e do bairro, se encararia no dia seguinte. Fiquei pensando sobre como um relacionamento se mantém depois de uma briga em que se diz tanto um para o outro. Fiquei pensando em recomeços. E eu acho que fui dormir de novo torcendo por aquele casal quase sem me dar conta. Eu queria acreditar que recomeços são possíveis depois que nos desesperamos. Eu precisava acreditar nisso. O casal vizinho não sabe, mas a desesperada e, de certa forma, corajosa discussão deles me ajudou a entender por que meus olhos se enchiam d'água outra vez.
17 fevereiro 2007
06 fevereiro 2007
Falta de assunto (no banheiro)

Sabe umas mosquinhas (ou seriam mosquitinhos?) que aparecem no banheiro, de asinhas arredondadas, corpo inteiro praticamente virado em asinhas redondinhas, cinzas? Elas são meio que da cor das letras deste post, sabe? Parecem não ter cabeça, nem patinhas, bem pequenas, sabe? Você está ali no banho, olha pro lado e lá está uma, surgida não sei de onde, não sei a partir de quem, porque como podem se acasalar tão pequenas e frágeis?
Tentei o Google, atrás de alguma imagem, mas não sei o nome delas para fazer a pesquisa - e o google ainda não adivinha pensamentos... (O Fabiano achou !!! Obrigada pela contribuição!!! Olha a mosquinha de banheiro aí do lado.)
Entendeu de quais mosquinhas eu tô falando?
Bem, você já esmagou uma na parede do banheiro ou do box do chuveiro?
Elas são de grafite, não são?
***
Pasta de dente é um troço que não acaba nunca, né? Tem-se sempre a impressão de que em algum canto há mais um naco de pasta para mais uma última escovada. Que coisa. Está ali, toda retorcida, porque foi espremida no dia anterior e também no dia anterior ao do anterior, porque vem sendo espremida há quase uma semana, e tu ainda acha que, no dia seguinte, haverá algo a sair de dentro daquele tubinho já desfigurado.
Fora as técnicas espertas... tem gente que usa o cabinho da escova de dente para alisar o tubo em todo o comprimento. Vem apertando aquilo, desde o fim, certo de que tudo foi empurrado para o bico... tem gente que enrola o tubo também, e vem esmagando com os dedos mesmo.
Mas tem um dia, tem uma manhã daquele dia em que tu tem certeza que vai resolver todas as pendências da tua vida, que simplesmente tu decide que acabou. Chega. E põe a pasta de dente no lixinho ao lado do vaso sanitário. É a primeira decisão de um grande dia, cheio de outras corajosas decisões como essa, tu tem certeza.
Se bem que, se espremesse mais um pouquinho daquele lado ali, talvez saísse um pouco mais de pasta...
Joga isto fora de uma vez, caramba.
22 janeiro 2007
O bar
Na ponta da esquina, era uma daquelas casas antigas, cuja construção usa tudo o que pode na frente, deixando a calçada bem estreita. De madeira, como as janelas, e estreita também, a porta alta, com uma espécie de janelinha no topo, bem onde a rua vira esquina e mira o cruzamento. Nada aponta que é um bar, a não ser a antiga placa da Coca-cola, que reserva um pedacinho, em letras pequenas, para o nome do lugar - é o nome de bar mais curioso que já vi.
Miudezas triunfantes.
Juro.
Miudezas triunfantes.
Juro.
17 janeiro 2007
No aeroporto
Sábado de folga, dia 13. Vôo atrasado. Seqüenciamento de aeronaves. Decido achar um canto no chão para me sentar. A sala de embarque está cheia. Há pouco, eu havia recebido uma boa notícia. Meu primo iria para o mesmo lugar que eu no Rio, meu destino, se tudo desse certo. Isso significa que poderíamos nos encontrar e eu teria companhia. Mas o horário agora me preocupa e começo a pensar em um plano b. Desistir seria feio demais. Ligar para a agência de viagens e ver as possibilidades? Talvez elas não existam. É que, dependendo, pode não haver tempo para eu chegar a Niterói.
Vindo do lado direito, ouço uma história triste. Um homem e uma garota – que podia passar por sua filha, mas descubro depois que é sobrinha – avisam familiares do atraso do vôo. E começo a conhecer o motivo da viagem dos dois. Alguma jovem parente de ambos faleceu vítima de câncer. Vão para o enterro, em Curitiba – onde meu vôo faz escala. A moça falecida tinha acabado de se casar quando descobriu a doença, que agiu rápido. Ao conhecer o diagnóstico feroz, liberou o noivo/marido para partir. Ele havia deixado emprego em SP para começar nova vida ao lado dela. Começou, mas a vida se revelou curta depois do casamento. Parece que ele ficou junto dela até o fim.
Ok, me dou conta de que o mundo é bem maior do que meus problemas daquele instante, circunstanciais e tal... mas não consigo achar razoável o atraso (o problema ficaria ainda maior em Curitiba e eu perderia de vez a ida ao Rio).
Os que conversavam ao meu lado – o homem e um rapaz para quem era contada a história do falecimento precoce – agora falam sobre outra coisa. Nunca tinham se visto até então. Quanto tempo vai durar essa amizade?
Salas de espera devem ser os primórdios desse comportamento disseminado na Internet: falar com estranhos. Disparar um oi para alguém. Na rua, falamos com que não conhecemos? No mundo virtual, nos Second Life por aí, sim. Salas de bate-papo reais é o que são as salas de embarque de vôos atrasados. Ou melhor, as salas/os locais de qualquer coisa quando reúnem várias pessoas por um tempo.
Sabia que seria, de qualquer forma, um sábado diferente. Mas não há dúvidas de que não esperava tanto. Estou tensa. Nem só pelo atraso. Mas por haver uma discordância entre o que eu gostaria de fazer (voltar para casa, mas sem perder dinheiro ou a chance do teste para voluntária no Pan) e o que eu deveria fazer (tentar até o último minuto).
Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Acho que a minha é. Mas é bem verdade que tenho me esforçado para que ela cresça um pouco.
Vindo do lado direito, ouço uma história triste. Um homem e uma garota – que podia passar por sua filha, mas descubro depois que é sobrinha – avisam familiares do atraso do vôo. E começo a conhecer o motivo da viagem dos dois. Alguma jovem parente de ambos faleceu vítima de câncer. Vão para o enterro, em Curitiba – onde meu vôo faz escala. A moça falecida tinha acabado de se casar quando descobriu a doença, que agiu rápido. Ao conhecer o diagnóstico feroz, liberou o noivo/marido para partir. Ele havia deixado emprego em SP para começar nova vida ao lado dela. Começou, mas a vida se revelou curta depois do casamento. Parece que ele ficou junto dela até o fim.
Ok, me dou conta de que o mundo é bem maior do que meus problemas daquele instante, circunstanciais e tal... mas não consigo achar razoável o atraso (o problema ficaria ainda maior em Curitiba e eu perderia de vez a ida ao Rio).
Os que conversavam ao meu lado – o homem e um rapaz para quem era contada a história do falecimento precoce – agora falam sobre outra coisa. Nunca tinham se visto até então. Quanto tempo vai durar essa amizade?
Salas de espera devem ser os primórdios desse comportamento disseminado na Internet: falar com estranhos. Disparar um oi para alguém. Na rua, falamos com que não conhecemos? No mundo virtual, nos Second Life por aí, sim. Salas de bate-papo reais é o que são as salas de embarque de vôos atrasados. Ou melhor, as salas/os locais de qualquer coisa quando reúnem várias pessoas por um tempo.
Sabia que seria, de qualquer forma, um sábado diferente. Mas não há dúvidas de que não esperava tanto. Estou tensa. Nem só pelo atraso. Mas por haver uma discordância entre o que eu gostaria de fazer (voltar para casa, mas sem perder dinheiro ou a chance do teste para voluntária no Pan) e o que eu deveria fazer (tentar até o último minuto).
Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Acho que a minha é. Mas é bem verdade que tenho me esforçado para que ela cresça um pouco.
06 janeiro 2007
Quadros...
Por que na casa-de-praia o pudor das pessoas some ao decidirem pendurar coisas na parede?
***
Por que na praia a gente topa qualquer coisa? Por quê? Tomar café ao meio-dia, almoçar às 17h, lembrar de tomar banho só às dez da noite, jantar (pão d'água com-o-q-tiver/sobrou) às 23h, ir ao súper de biquíni (ir ao súper em que as pessoas estão de bíquini, com seus corpos disformes e com restos de areia e bronzeador) -- que súper? ir ao mercadinho da esquina atrolhado onde se vende tudo o que tu imagina mas que nunca é encontrado na prateleira do corredor em que tu está... --, dormir de roupa onde sobrar lugar -- na cozinha, por que não?... --, colchões traiçoeiros, banheiro ensopado... e a decoração duvidosa na parede...
***
Por quê? Por que tudo isso parece inconcebível, por que tudo isso é em geral impraticável a poucos quilômetros dali, na cidade?
***
O que a praia revela de nós mesmos?
***
Por que na praia a gente topa qualquer coisa? Por quê? Tomar café ao meio-dia, almoçar às 17h, lembrar de tomar banho só às dez da noite, jantar (pão d'água com-o-q-tiver/sobrou) às 23h, ir ao súper de biquíni (ir ao súper em que as pessoas estão de bíquini, com seus corpos disformes e com restos de areia e bronzeador) -- que súper? ir ao mercadinho da esquina atrolhado onde se vende tudo o que tu imagina mas que nunca é encontrado na prateleira do corredor em que tu está... --, dormir de roupa onde sobrar lugar -- na cozinha, por que não?... --, colchões traiçoeiros, banheiro ensopado... e a decoração duvidosa na parede...
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Por quê? Por que tudo isso parece inconcebível, por que tudo isso é em geral impraticável a poucos quilômetros dali, na cidade?
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O que a praia revela de nós mesmos?
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