02 junho 2007
Um jeito
Bonita, inteligente, até engraçada, sabe ser envolvente, insinuante. Mas é triste. Uma tristeza nata, endêmica. Tem o olhar triste. Falta brilho. E não tem nada mais repelente do que a tristeza.
13 maio 2007
Então, a mãe do Santi gritou meu nome
10km é quase nada, mesmo para quem não corre, imagina para os praticantes. Então, se eu te disser que corri 10km, tu não vais dar bola. Se eu dissesse que não consegui correr 10km, aí tu ias achar alguma coisa. É como o Gauchão pra Inter e Grêmio. Se perde, fica chato. Se ganha, não fez mais que a obrigação.
Então, eu ter completado o percurso de 10km só é importante, passível de valorização, por uma única pessoa: eu mesma. A vida é assim em vários outros aspectos: tem coisas que você faz e só haverá uma pessoa para aplaudir, incentivar. Você mesmo. Esporte e vida têm muitas possibilidades de analogia. A atividade física é muito instintiva. Acho que por isso nosso jeito de ser fica tão evidente. Bastou meio semestre de ginástica olímpica na faculdade para o professor me chamar num canto e dizer: “Sabe por que tu não consegues fazer os exercícios, Loraine? Porque tu não confia em ti”. Tchóóóin!
Bom, mas o assunto não é esse...
Vamos à corrida. A de 10km, que eu completei numa manhã de domingo dessas. Eu e um monte de gente, claro.
O que eu mais lembro daquele dia: de respiração. Há muitas respirações: a tua, a do cara que vai do lado, do cara que vem te atropelando, do cara que está atrás e não vai te passar, do cara que tá na frente e tu não vai ultrapassá-lo, do cara que tu deixa pra trás... Depois, acho que o som mais marcante é o que vem dos pés, da passada no asfalto. Da metade da prova em diante, isso tudo continua, mas no meu caso eu passei a ouvir mais a minha própria respiração e a minha própria passada. É como se todo o resto não existisse. E, no meu caso, eu passei a falar comigo mesmo, mentalmente. Perguntava: joelhos, vocês estão bem? E vocês, pulmões? Pensava no movimento do braço... meu corpo virou uma gigantesca área de pesquisa, e esqueci do resto. Te juro, às vezes tinha a impressão que meus ouvidos tinham sido tampados, tamanho o interesse que eu tinha pelo que vinha do meu corpo, e não do entorno. (Acho até que no final senti uma peninha de não ter curtido mais, olhado mais em volta... algumas pessoas conversam entre si...)
Quando me aproximei do fim, vi o pórtico de chegada, não sei como é com os outros, mas algumas preocupações evaporaram, o fim estava ali, estava tudo bem, entende? Meio que como mágica, quis correr mais. Quis correr o que achei que não podia quando faltavam 2km pro fim. E se deixasse, vibrasse mesmo, corria mais mesmo!
Foi nessa hora que eu ouvi a mãe do Santiago gritar meu nome. Isso foi muito engraçado, eu nem sei por quê.
Foi nessa hora que vi a véia de cóqui, na minha frente, se aproximando do fim também. Ela percebeu minha aproximação e apertou o passo. Eu achei isso genial. Não valia absolutamente nada para nenhuma das duas, mas eu e ela, por segundos, apertamos o passo para nos vencer. Distraída com isso, duvidando de que teria mais força que ela, ou por estar cansada mesmo, ou por não ser exatamente vibrante, não a ultrapassei, e cruzamos a chegada quase juntas, ela um pouco mais à frente. Um cóqui de vantagem.
Em casa, depois, fiquei pensando: por que não passei aquela véia?!?!?
****
Esses dias eu fiz um troço que, há um tempo atrás, eu jamais apostaria como provável que fizesse. E nem contei aqui! Deixei passar. Eu sou assim: totalmente antivibração. Que pé no saco...
Eu corri! 10km. Sem parar. E num bom tempo para quem mal dava seis voltas na pista de 400m há pouco mais de três/quatro meses.
Se eu fosse um pouquinho mais vibrante, até teria passado aquela véia de cóqui (cóqui!!) na reta final, rumo à chegada. Teria passado ela, mais umas duas, e meu tempo teria sido menor ainda.
Já explico melhor essa história. No post seguinte. Quer dizer, como eles (os posts) ficam de baixo para cima, você até já leu... Ta ali em cima. Eu não disse que sou antivibração? Até no blog.
*****
Tem uma coisa no jornalismo que pode ser fascinante, intrigante, irritante.
É isso:
O repórter chega algariado da rua e, depois de largar o bloco na mesa, assanhado pra escrever a história que está quentinha em sua mente, olhos e ouvidos, dá uma passada no bar da Redação. Para assentar as idéias, tomar um café. Ali, ele conta a pauta, a história para uma platéia cujo tamanho varia de acordo com a relevância do assunto que ele foi buscar, mas sempre há alguém prestando atenção. Aí, ele volta pra Redação.
E, no dia seguinte, a história que ele contou no bar é bem melhor do que a publicada no jornal.
Eu ando incomodada com o fato de o jornalismo se afastar tanto da vida real. Ok, sobra vida real em qualquer página do jornal, nem precisa se esforçar para procurar. Me expressei mal, eu acho. Eu quis dizer que o jornalismo anda longe do que realmente importa. É isso que sinto. Ou é uma impressão muito particular, algo ingênuo ou ignorante?
Então, eu ter completado o percurso de 10km só é importante, passível de valorização, por uma única pessoa: eu mesma. A vida é assim em vários outros aspectos: tem coisas que você faz e só haverá uma pessoa para aplaudir, incentivar. Você mesmo. Esporte e vida têm muitas possibilidades de analogia. A atividade física é muito instintiva. Acho que por isso nosso jeito de ser fica tão evidente. Bastou meio semestre de ginástica olímpica na faculdade para o professor me chamar num canto e dizer: “Sabe por que tu não consegues fazer os exercícios, Loraine? Porque tu não confia em ti”. Tchóóóin!
Bom, mas o assunto não é esse...
Vamos à corrida. A de 10km, que eu completei numa manhã de domingo dessas. Eu e um monte de gente, claro.
O que eu mais lembro daquele dia: de respiração. Há muitas respirações: a tua, a do cara que vai do lado, do cara que vem te atropelando, do cara que está atrás e não vai te passar, do cara que tá na frente e tu não vai ultrapassá-lo, do cara que tu deixa pra trás... Depois, acho que o som mais marcante é o que vem dos pés, da passada no asfalto. Da metade da prova em diante, isso tudo continua, mas no meu caso eu passei a ouvir mais a minha própria respiração e a minha própria passada. É como se todo o resto não existisse. E, no meu caso, eu passei a falar comigo mesmo, mentalmente. Perguntava: joelhos, vocês estão bem? E vocês, pulmões? Pensava no movimento do braço... meu corpo virou uma gigantesca área de pesquisa, e esqueci do resto. Te juro, às vezes tinha a impressão que meus ouvidos tinham sido tampados, tamanho o interesse que eu tinha pelo que vinha do meu corpo, e não do entorno. (Acho até que no final senti uma peninha de não ter curtido mais, olhado mais em volta... algumas pessoas conversam entre si...)
Quando me aproximei do fim, vi o pórtico de chegada, não sei como é com os outros, mas algumas preocupações evaporaram, o fim estava ali, estava tudo bem, entende? Meio que como mágica, quis correr mais. Quis correr o que achei que não podia quando faltavam 2km pro fim. E se deixasse, vibrasse mesmo, corria mais mesmo!
Foi nessa hora que eu ouvi a mãe do Santiago gritar meu nome. Isso foi muito engraçado, eu nem sei por quê.
Foi nessa hora que vi a véia de cóqui, na minha frente, se aproximando do fim também. Ela percebeu minha aproximação e apertou o passo. Eu achei isso genial. Não valia absolutamente nada para nenhuma das duas, mas eu e ela, por segundos, apertamos o passo para nos vencer. Distraída com isso, duvidando de que teria mais força que ela, ou por estar cansada mesmo, ou por não ser exatamente vibrante, não a ultrapassei, e cruzamos a chegada quase juntas, ela um pouco mais à frente. Um cóqui de vantagem.
Em casa, depois, fiquei pensando: por que não passei aquela véia?!?!?
****
Esses dias eu fiz um troço que, há um tempo atrás, eu jamais apostaria como provável que fizesse. E nem contei aqui! Deixei passar. Eu sou assim: totalmente antivibração. Que pé no saco...
Eu corri! 10km. Sem parar. E num bom tempo para quem mal dava seis voltas na pista de 400m há pouco mais de três/quatro meses.
Se eu fosse um pouquinho mais vibrante, até teria passado aquela véia de cóqui (cóqui!!) na reta final, rumo à chegada. Teria passado ela, mais umas duas, e meu tempo teria sido menor ainda.
Já explico melhor essa história. No post seguinte. Quer dizer, como eles (os posts) ficam de baixo para cima, você até já leu... Ta ali em cima. Eu não disse que sou antivibração? Até no blog.
*****
Tem uma coisa no jornalismo que pode ser fascinante, intrigante, irritante.
É isso:
O repórter chega algariado da rua e, depois de largar o bloco na mesa, assanhado pra escrever a história que está quentinha em sua mente, olhos e ouvidos, dá uma passada no bar da Redação. Para assentar as idéias, tomar um café. Ali, ele conta a pauta, a história para uma platéia cujo tamanho varia de acordo com a relevância do assunto que ele foi buscar, mas sempre há alguém prestando atenção. Aí, ele volta pra Redação.
E, no dia seguinte, a história que ele contou no bar é bem melhor do que a publicada no jornal.
Eu ando incomodada com o fato de o jornalismo se afastar tanto da vida real. Ok, sobra vida real em qualquer página do jornal, nem precisa se esforçar para procurar. Me expressei mal, eu acho. Eu quis dizer que o jornalismo anda longe do que realmente importa. É isso que sinto. Ou é uma impressão muito particular, algo ingênuo ou ignorante?
10 abril 2007
Lost
Tenho medo, muito medo. Não sei como, mas voltei a entrar neste blog. Repenso meus últimos passos... Eu estava lá no Simplificar É (http://pratiquesimplicidades.blogspot.com/) , porque ontem ele não me permitia responder a um comentário e, de repente, estou aqui de volta e... Enfim, nada tem lógica. Lost. Medo. Muito medo do Google.
17 fevereiro 2007
Os vizinhos
Não era o meio da noite ainda, mas eu já estava dormindo. Havia até sonhado, apesar de adormecido sem tranqüilidade. Pouco depois da 1h, fui acordada por eles.
Eu tinha ido dormir triste, chateada, acho até que fechei os olhos delicadamente, sem apertar as pálpebras. Acho que senti a pocinha de lágrimas ir até a beira, mas segurei, favorecida pela posição – de barriga para cima, nuca presa ao travesseiro, cabeça sem virar para o lado, o que faria esvaziar meus olhos (e permitir que se enchessem de novo).
Então, eles me acordaram. Nesse momento, lembrei de procurar em mim as lágrimas, mas os olhos estavam secos. Elas se foram – sem que eu as visse, ainda bem. No silêncio da rua, da minha casa, o som das vozes deles ganhava uma altura constrangedora. É como se estivessem na sala do meu apartamento. Mais: pareciam estar ali ao lado da minha cama. Fechei os olhos e virei para o lado, como que querendo deixá-los à vontade.
Desisto da discrição e prendo minha atenção no que dizem. Não é possível entender. Afasto a orelha do travesseiro, mas nem com os dois ouvidos a postos consigo entender por que discutem. É um casal, mas agora só ela fala. Há alguns minutos, é só a mulher quem fala. Grita. Chora. Sua voz às vezes vira um rosnar, sai da garganta, o final das palavras fica perdido em algum lugar. Já posso imaginar o rosto inflamado, lavado pelas lágrimas. O homem não falará mais até o final. Eu, pelo menos – talvez a rua inteira, o bairro inteiro –, não o escuto. E ela berra. Recupera o fôlego, segura o choro e, só nessas vezes, posso ouvir que fala em dinheiro, quantias, argumenta com datas.
Dizem que mulher é assim: guarda tudo, lembra de tudo para ser despejado na hora da discussão. Os homens não. Um cara que conheço, é verdade isso, leva na carteira um papelzinho branco, pequeno. Em letra miúda, de um lado ele lista todos os seus 'bens' que estão na casa da namorada; do outro lado, anota palavras-chave de situações que o magoaram e ele relevou ou algo assim; tudo para não correr o risco de esquecer na hora da briga derradeira, a que se desenhar como ponto final da relação.
Na minha cama, fiquei pensando como aquele casal que, de seu quarto (provavelmente), espalhava mágoa janela afora, enchendo a noite da rua e do bairro, se encararia no dia seguinte. Fiquei pensando sobre como um relacionamento se mantém depois de uma briga em que se diz tanto um para o outro. Fiquei pensando em recomeços. E eu acho que fui dormir de novo torcendo por aquele casal quase sem me dar conta. Eu queria acreditar que recomeços são possíveis depois que nos desesperamos. Eu precisava acreditar nisso. O casal vizinho não sabe, mas a desesperada e, de certa forma, corajosa discussão deles me ajudou a entender por que meus olhos se enchiam d'água outra vez.
Eu tinha ido dormir triste, chateada, acho até que fechei os olhos delicadamente, sem apertar as pálpebras. Acho que senti a pocinha de lágrimas ir até a beira, mas segurei, favorecida pela posição – de barriga para cima, nuca presa ao travesseiro, cabeça sem virar para o lado, o que faria esvaziar meus olhos (e permitir que se enchessem de novo).
Então, eles me acordaram. Nesse momento, lembrei de procurar em mim as lágrimas, mas os olhos estavam secos. Elas se foram – sem que eu as visse, ainda bem. No silêncio da rua, da minha casa, o som das vozes deles ganhava uma altura constrangedora. É como se estivessem na sala do meu apartamento. Mais: pareciam estar ali ao lado da minha cama. Fechei os olhos e virei para o lado, como que querendo deixá-los à vontade.
Desisto da discrição e prendo minha atenção no que dizem. Não é possível entender. Afasto a orelha do travesseiro, mas nem com os dois ouvidos a postos consigo entender por que discutem. É um casal, mas agora só ela fala. Há alguns minutos, é só a mulher quem fala. Grita. Chora. Sua voz às vezes vira um rosnar, sai da garganta, o final das palavras fica perdido em algum lugar. Já posso imaginar o rosto inflamado, lavado pelas lágrimas. O homem não falará mais até o final. Eu, pelo menos – talvez a rua inteira, o bairro inteiro –, não o escuto. E ela berra. Recupera o fôlego, segura o choro e, só nessas vezes, posso ouvir que fala em dinheiro, quantias, argumenta com datas.
Dizem que mulher é assim: guarda tudo, lembra de tudo para ser despejado na hora da discussão. Os homens não. Um cara que conheço, é verdade isso, leva na carteira um papelzinho branco, pequeno. Em letra miúda, de um lado ele lista todos os seus 'bens' que estão na casa da namorada; do outro lado, anota palavras-chave de situações que o magoaram e ele relevou ou algo assim; tudo para não correr o risco de esquecer na hora da briga derradeira, a que se desenhar como ponto final da relação.
Na minha cama, fiquei pensando como aquele casal que, de seu quarto (provavelmente), espalhava mágoa janela afora, enchendo a noite da rua e do bairro, se encararia no dia seguinte. Fiquei pensando sobre como um relacionamento se mantém depois de uma briga em que se diz tanto um para o outro. Fiquei pensando em recomeços. E eu acho que fui dormir de novo torcendo por aquele casal quase sem me dar conta. Eu queria acreditar que recomeços são possíveis depois que nos desesperamos. Eu precisava acreditar nisso. O casal vizinho não sabe, mas a desesperada e, de certa forma, corajosa discussão deles me ajudou a entender por que meus olhos se enchiam d'água outra vez.
06 fevereiro 2007
Falta de assunto (no banheiro)

Sabe umas mosquinhas (ou seriam mosquitinhos?) que aparecem no banheiro, de asinhas arredondadas, corpo inteiro praticamente virado em asinhas redondinhas, cinzas? Elas são meio que da cor das letras deste post, sabe? Parecem não ter cabeça, nem patinhas, bem pequenas, sabe? Você está ali no banho, olha pro lado e lá está uma, surgida não sei de onde, não sei a partir de quem, porque como podem se acasalar tão pequenas e frágeis?
Tentei o Google, atrás de alguma imagem, mas não sei o nome delas para fazer a pesquisa - e o google ainda não adivinha pensamentos... (O Fabiano achou !!! Obrigada pela contribuição!!! Olha a mosquinha de banheiro aí do lado.)
Entendeu de quais mosquinhas eu tô falando?
Bem, você já esmagou uma na parede do banheiro ou do box do chuveiro?
Elas são de grafite, não são?
***
Pasta de dente é um troço que não acaba nunca, né? Tem-se sempre a impressão de que em algum canto há mais um naco de pasta para mais uma última escovada. Que coisa. Está ali, toda retorcida, porque foi espremida no dia anterior e também no dia anterior ao do anterior, porque vem sendo espremida há quase uma semana, e tu ainda acha que, no dia seguinte, haverá algo a sair de dentro daquele tubinho já desfigurado.
Fora as técnicas espertas... tem gente que usa o cabinho da escova de dente para alisar o tubo em todo o comprimento. Vem apertando aquilo, desde o fim, certo de que tudo foi empurrado para o bico... tem gente que enrola o tubo também, e vem esmagando com os dedos mesmo.
Mas tem um dia, tem uma manhã daquele dia em que tu tem certeza que vai resolver todas as pendências da tua vida, que simplesmente tu decide que acabou. Chega. E põe a pasta de dente no lixinho ao lado do vaso sanitário. É a primeira decisão de um grande dia, cheio de outras corajosas decisões como essa, tu tem certeza.
Se bem que, se espremesse mais um pouquinho daquele lado ali, talvez saísse um pouco mais de pasta...
Joga isto fora de uma vez, caramba.
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