
Hoje é dia dos pais.
Claro que é uma data comercial... patati...patatá. Mas não dá para esquecer que faz oito anos que não abraço o meu nesse dia. E o meu pai era a pessoa que eu mais abraçava na minha família. Sempre foi. Virava-e-mexia, eu estava pendurada nele. Aquelas coisas de ter mais afinidade com umas pessoas do que outras, mesmo (ou principalmente) nas famílias.
Mas este não será um texto triste, eu prometo.
O pai, em geral, é o primeiro homem que amamos na vida. E não raro o primeiro a nos decepcionar, porque haverá um dia em que vamos descobrir que ele não é um super herói...patati patatá.
(Provavelmente, este será um texto mais pro super herói, mas estamos combinados que eu sei que ele não foi, ok?)
Teve uma época que eu sabia "muito" de futebol. Ia para o estádio do Grêmio com ele. Falávamos sobre muitas coisas, até de futebol. E depois de um tempo percebi que o mais legal de tudo eram justamente as conversas enquanto esperávamos o jogo começar.
Eu conversava muito com meu pai. Eu era faladeira com ele, juro! :)
Acho que tem a ver com confiança. Que não se compra, não se pede, não se encomenda. Apenas existe. Eu confiava nele. E meu pai ouvia até o meu silêncio. Às vezes, na viagem de carro, ele retrucava: "a loraine veio, hein?" (eu sentada logo atrás dele).
Meu pai me ajudou a estudar às pressas para a primeira prova de colégio da qual me lembro. O teste era à tarde, e eu passei a manhã dispersiva, como uma típica pisciana, sempre pronta a trocar a realidade pelo devaneio. Eu não lembro se fui bem na prova, acho até que colei da minha irmã (te confessei isso alguma vez, mana?). Mas daquele dia em diante foi diferente. Anos depois, vi meu pai várias vezes junto à porta do meu quarto, final de ano, um calorão, eu adolescente, estudando para as provas finais: "O que tu tá estudando se tu já tá passada, guria?"
Meu pai me ensinou a jogar sinuca. E teve uma época que joguei muito bem. Ganhava dos guris. Teve uma época que eu "tomava" cachaça com ele enquanto a mãe esquentava o jantar. E teve uma vez que meu pai, acreditem, me disse que eu ia ficar bem com um cigarro. Que combinava comigo. Nada politicamente correto, né? Pois é. O tipo de coisa arriscada que se diz quando se confia na pessoa. Meu pai confiava em mim. Eu vim a saber disso muito tempo depois, e levei um susto.
Meu pai achava que eu podia ser médica, porque ia muito bem no colégio e tinha jeito de médica (?!!). Eu queria fazer educação física, que nem ele. Mas uma vez, quando leu um cartão de dia dos pais que fiz, um cartão caprichado!, ele me olhou, segurou meu queixo com a ponta dos dedos e disse: "tu vai ser escritora, filha?"
Eu fiz jornalismo. E lembro do dia que ele procurou no supermercado o jornal em que saiu a primeira notinha que redigi como "jornalista". Apontou no papel, dizendo pra vendedora: foi minha filha que fez.
E tempos depois eu cursei educação física. :) Mas não consegui contar a ele. Eu me inscrevi no vestibular pela manhã e ao meio-dia ele morreu. O primeiro dia de aula na faculdade depois disso foi bem emocionante pra mim. Não terminei educação física, é verdade (foi preciso escolher entre continuar a pagar a faculdade ou tentar financiamento do apê pra sair de casa...) mas... a vida deu voltas e hoje tenho muitos amigos na área. Me sinto "pertencente" a esse mundo, ainda que sem diploma.
Meu pai foi pra cima e pra baixo comigo quando tive anorexia. Numa época em que a doença mal era conhecida, ele teve muita dificuldade para compreendê-la. Muita gente tem até hoje, imagina naquela época então... E ele brigou comigo por causa disso como ninguém. Foi uma época bem difícil, mas também de muita dedicação da parte dele. Quando ele morreu, eu pensei: "puxa, Loraine, ele te salvou e você não o salvou". Tolice a minha... quanta arrogância, Loraine...
O último livro que ele leu, já no hospital, foi eu que dei. Ele adorou. Era uma história com muitas descrições do pampa, das estradas por aí afora. Meu pai era caçador. Dizia que o Rio Grande do Sul era grande demais. Vinha o inverno, aqueles dias frios com chuva miúda tocada a vento, ele dizia "ahhh, tempinho bom para caçar". Meu pai gostava da função, da aventura. Nós tínhamos dificuldade para entender qual era o prazer de levantar às 4h da manhã, caminhar no campo, com água pela cintura às vezes, carregando um monte de tralha e esperando um bicho que nem sempre vinha. Guardadas as devidas proporções, quando saio pra correr, quando topo uma competição, com chuva, e fica tudo difícil, sei lá, vale até a friaca do jipe à noite, eu lembro dele. E então acho que entendo o prazer que ele sentia na adversidade voluntária.
Uma vez fui caçar com ele. Até então nunca o tinha visto tão realizado. Sempre que quero lembrar dele muito feliz, penso em sua imagem, encostado numa ribanceira, à beira de um banhado. Era final da tarde, eu estava ao lado dele. Falávamos sobre qualquer coisa, acho que ele contava de alguma caçada... Daquele vazio imenso de campo afora vinham muitos barulhos... (a natureza faz muitos sons no amanhecer e no entardecer, vc já notou?). Ele abriu um sorriso do nada. Um sorriso de felicidade tão grande que eu mal soube o que fazer com ele.
Agora, eu sei.
É para, por exemplo, lembrar num dia como hoje.
obs.: a foto ali é do fim de semana da tal caçada. Meu pai à esquerda e um dos meus irmãos à direita. Foi uma saída só para reconhecimento do local.