prontidão.
presença.
boa vontade.
coragem.
(ou assim)
prontidão. presença. boa vontade. coragem.
(ou assim)
coragem.
prontidão.
presença.
boa vontade.
(ou...)
boa vontade e coragem. (ou) coragem e boa vontade
prontidão e presença. (ou) presença e prontidão.
(ou...)
prontidão = presença? ou seria = à coragem?
boa vontade (para ter...) prontidão e/ou presença?
(não consigo ter certeza. Da ordem. Do que origina o quê. O que é causa do quê. O que é efeito do quê. O que é prêmio/recompensa do quê. Se todos se equivalem ou se são progressivos, como degraus de uma escada. No topo da escada? Uma atitude. Um gesto. Uma ação. É claro que realizamos centenas de milhares de ações sem nenhuma dessas prerrogativas... o ponto é esse. Quando uma ação/atitude tem valor?)
post em aberto... talvez eu volte aqui mais tarde...
não consigo terminar. Acho que foi o vinho.
26 julho 2010
23 junho 2010
Roubos (3)
"Tudo o que fiz nestes últimos anos (nestes últimos anos apenas? Não é desde sempre?) me interessou, mas não era nunca o que me interessava mais. (...) Esta cegueira de mim mesmo, de meu "ser profundo", foi alimentada, ampliada, pela dispersão nas coisas secundárias. (...) A ideia do número um - do essencial - hoje me parece um pouco falsa. Há um essencial do qual, digamos, há vinte anos eu fugi? A verdade é que me deixei levar demais por coisas secundárias; eu me vi na teia de relações semiprofissionais, semi-amigáveis; dispersei-me. (...) O que significa meu desejo de tornar-me "profundo'? (...) Pois é, eu queria ser ao mesmo tempo o monge meditativo em sua cela e o grande viajante intercontinental, o revolucionário chama-ardente-do-futuro e o eremita contemplativo do eterno, o asceta e o luxurioso."
Edgar Morin... euhein?! Pois é... leituras pretensiosas... menos, menos.
Eu gosto mesmo é de ler horóscopo.
roubado do livro "X da Questão", de Edgar Morin. Por que "roubar"? Aqui.
Edgar Morin... euhein?! Pois é... leituras pretensiosas... menos, menos.
Eu gosto mesmo é de ler horóscopo.
19 junho 2010
Cutuco x modus operandi
A bonita capa da ZH de hoje me lembrou algumas coisas, entre elas, o fato de eu gostar das edições de sábado dos jornais.Talvez porque grande parte dos jornais reserve o sábado para os cadernos de Cultura. Mas isso poderia parecer pretensioso de minha parte. Adoro viajar na maionese com os cadernos de cultura dos jornais, mas é verdade que há muito tempo não os leio. Suspeito, inclusive, que eles nem sejam mais esses passaportes para viagens na maionese.
Talvez eu goste das edições de sábado porque as manhãs de sábado são preguiçosas, quando o tempo passa diferente, e assim ler não precisa ser rápido. Mas as de domingo também o são, e não gosto tanto dos jornais de domingo como gosto dos jornais de sábado. E eu nem poderia dizer que os jornais de sábado são edições melhores, porque não são. Sei bem como são feitas na sexta-feira. A toque de caixa, apenas para constar, preocupados que estão todos com as matérias especiais do jornal de domingo - que, aliás, começa a circular na cidade nas tardes de sábado, outro fator que denota a (nenhuma) importância que as pessoas dão para as edições de sábado, com um tempo de vida tão curto.
Talvez eu tenha lembrado que eu gosto dos jornais de sábado porque hoje chove muito em Porto Alegre, e há um prazer muito próprio em ler um jornal com a chuva lá fora e uma caneca de café aqui dentro. Enfim.
Então... a edição de sábado está fadada ao esquecimento não fossem os fatos. E não foram poucas as vezes que eles teimaram em acontecer para revirar a rotinas das redações nas sextas-feiras. Como ontem, na morte do Saramago. E aí temos essa bonita capa de ZH.
E isso me fez lembrar como o jornalismo pode ser desconsertante do ponto de vista humano: é justamente na perda, na dor, no fato que ninguém desejaria que acontecesse, é justamente aí que ele se valoriza, se renova, se faz necessário (ou se acha que se faz necessário...). Quer belas capas de jornais? Pense numa tragédia.
Desconfortável, não?
Eu ainda acho que os critérios que definem o que é apenas um fato e o que é um fato e também uma notícia deveriam ser repensados. Tenho uma vaga lembrança de um xerox lido durante o curso de jornalismo, cujo texto abordava os critérios para definir o que é notícia. Não consigo lembrar de todos - putz! - mas morte estava lá. Minha vaga lembrança permite, ainda, dizer que se tratava de um texto já velho para a época. Tipo início do século 20.
Para mim, é incrível que os jornais, a grosso modo, continuem a noticiar se valendo de critérios tão antigos. E não sei se é consciente. Parece que apenas não se mexe nessa "instituição" - quando todo o resto da vida já questionou e continua a questionar todas as "verdades".
Por que uma boa notícia, algo que nos faça sorrir, que nos inspire, tem peso menor nas páginas de jornais (e no interesse dos leitores)? Não sei. Eu até acho que um jornal se diferencia de outro quando justamente define o que vai ser notícia na sua edição do dia seguinte usando a intuição: um pé aqui, na "instituição", e outro lá, na vida invisível-mutante. Sensibilidade. Mas há espaço - e tempo - para sensibilidades no jornalismo diário? (talvez nas edições de sábado... rsrsr)
Mas o que eu queria dizer - coisa que a capa de hoje, com Saramago, me lembrou - é que posso imaginar a vibe que (no mínimo) por instantes a redação experimentou ontem, sexta, ao saber da morte do escritor. Planejamentos caíram, outros precisaram ser feitos. Mudanças de rumos, e rapidamente.
E isso é jornalismo: vibrar com os fatos. E é desconsertante porque, daqui a pouco, tu, jornalista, sem perceber, está vibrando na redação, eufórico, por causa de uma tragédia. Vi isso, e acho que senti isso, várias vezes, até me dar conta de que eu estava quase feliz (?) diante a possibilidade de um grande texto, diante uma grande foto, diante uma grande página, uma grande capa e uma grande edição baseadas... numa tragédia, na dor, numa morte, numa perda...
Claro, não se trata exatamente do fato que envolveu Saramago, um senhor que já tinha lá uma considerável idade... E morte, como bem sugeriu ele em seus livros, faz parte (ou não, como em Intermitências da Morte, um livro que achei tão chato que não acabei).
Mas é que lembrei do que pensei quando acompanhava a cobertura jornalística dos desabamentos no Rio ou do terremoto do Haiti. Os jornais tiveram assunto até não poder mais, o que alivia muito os pauteiros (quando um fato se impõe, vc não precisa inventar pauta. Quer dizer, se vc conseguir surpreender nessa hora, bem, vc é diferenciado, porque a rigor não precisa se "puxar"; os fatos garantem as edições).
Especialmente na tragédia do morro do Bumba, fiquei pensando na caravana de repórteres que para lá se deslocava todos os dias. TODOS os telejornais da Globo, só para citar UMA emissora, colocavam gente lá. Chegou uma hora em que ficou claro que o número de jornalistas era maior do que as notícias, e as informações se repetiam, e a tragédia era espremida até não poder mais. Então, eu pensei: nenhum jornalista sentiu vontade de AJUDAR aquelas pessoas, ao invés de ficar repetindo pruma câmera mais do mesmo? Será que nenhuma emissora, nenhuma redação repensou seu papel naquele momento?
Eu penso isso porque tenho certeza de que o jornalismo moderno ("imparcial", das megas corporações) provoca um (d)efeito colateral bastante questionável ao profissional que atua nele: o modus operandi de eterno espectador, de alguém que sempre se coloca à parte do fato, para poder contá-lo/registrá-lo, sem se envolver, a salvo dos erros, das dificuldades, das dores de quem VIVE os fatos e está efetivamente dentro deles.
Haverá um momento que essa capacidade humana fará falta à vida dele. A vida íntima dele mesmo, longe das redações. A menos que ele não se importe de confundir/mimetizar para sempre sua vida com o papel construído nas redações/na profissão, que o protege da (sua) vida real.
Agora na Copa do Mundo, outro exemplo. Mesma sensação: jornalistas batendo cabeça, de tantos que são num evento que não gera tantos fatos assim - mas será que não gera? Ou é de novo o modus operandi?
E dá-lhe Dunga fechando treino, piorando tudo. Vuvuzelas, jabulani, cala a boca Galvão. Deu né? Qual o papel de um jornalista na Copa?
Você não fica com a sensação de que, por tudo o que foi mostrado até aqui, não precisava tanta gente lá? Textos-crônica, show de imagens.... precisava ter ido lá pra isso? E o pior é quando eles fazem da presença deles lá, ou da parafernália tecnológica disponível, a notícia em si. Oi? Jornalista entrevistando jornalista. Oi? E essa tendência de apresentar as coisas em tom coloquial, em primeira pessoa, como se fosse um blog ou um orkut? E essa tendência tadeu-schmidt de descrever partidas?
Acho que tem espaço para tudo, o problema é quando o "diferencial" vira regra. Daqui a pouco o diferente vai ser o formalismo. O jeito voz-do-brasil-de-ser vai virar cult.
E aí fiquei pensando também num fato que foi noticiado com questionável economia nessa Copa: a morte da neta do Mandela. Putaqueopariu. O cara é um personagem-símbolo do país que sedia a Copa, por quatro anos se espera por isso, e aí no dia da abertura do evento a neta do cara MORRE num acidente de carro na saída da festa, e isso é menos relevante do que as imagens do Black Eyed Peas no palco!??!?
Ó, não é o caso de, aqui, morte ser critério para um fato virar notícia. Só penso que... Assim, do contato que tive e tenho com o jornalismo, guardo essa impressão, na qual confio: há algum potencial de notícia, de BOA história que precisa ser conferido em todo fato ou aspecto de um fato que parece "fora do lugar", que causa estranhamento...
O que não pode é, eu, jornalista que noticiei a goleada da Argentina, fiz piada com as vuvuzelas, analisei a derrota da Alemanha etc, na hora do cafezinho com os colegas ou quando tô indo embora pra casa, descansar, ver brotar em mim esse pensamento: "e a neta do Mandela, hein?".
E digo mais: se algum leitor/espectador viu essa inquietação brotar em si, sem encontrar resposta, o jornalismo/a imprensa perdeu a chance de se revalorizar frente a essa audiência.
Enfim.
Se esse pensamento/sensação brota, ainda que de forma bem sutil, pode ter certeza de que algo ali merecia atenção.
Nem toda sensação como essa gera uma grande notícia, uma grande história, mas toda notícia que faz diferença, que tem relevância numa edição começa com um cutuco assim.
Mas eu sei: é difícil sair do modus operandi.
24 maio 2010
Historinhas
A 7 passos do abismo
1
Foi traição? Ah, não, que exagero. Ela nem sabia o que era isso, nem sabia que estava namorando, e o cara estava mais para desligado, "tanto-faz-como-tanto-fez" modo on, do que para namorado. Afinal, após alguns dias de namoro (mas era namoro?), ele partiu para férias em outro lugar, deixando ela pra trás. Foi então que surgiu o outro, e ela experimentou o beijo dele - mil vezes melhor do que o do deslig... ops, do "namorado". Então, o namorado voltou e, em vez de procurá-la com saudade, ficou na rede, porque o mar ele só gostava de olhar. De longe. Ela atravessou as dunas, chamou-o e acabou o namoro.
Era namoro?
Anos depois o reencontrou. Muito diferente. Fisicamente muito diferente. E ela não o reconheceu. Se deram oi quando as identidades foram descobertas. Ela continuou o que fazia, entre os amigos, um pouco impressionada com ela mesma, tão indiferente àquele passado ali, na sua frente, de carne e osso. Mais carne do que osso. A noite não acabou sem que ele levantasse a camisa e batesse na própria pança gorda, num gesto exageradamente de bem com sua vida para quem realmente pudesse estar de bem com sua vida.
2
O que aconteceria se ela conseguisse sustentar o olhar para aquele estranho no ônibus? Estava constrangida com a insistência dele, sabia que ele continuava olhando. Era noite, fazia frio e ele usava uma jaqueta de couro preta. Por muito tempo depois daquela volta para casa ela jurou sentir o cheiro daquele tecido em vários momentos.
Ele nem era bonito, mas parecia forte. Ou era a jaqueta? Ela decidiu segurar o olhar nele, sem sorrir, pra ver até onde conseguiria. Passou por ele para alcançar a porta e descer em sua parada. Sentiu o meio de sua barriga esquentar ao perceber que ele faria o mesmo. Desceu do ônibus e quis andar rápido, mas em seguida uma mão no seu braço a impediu de prosseguir. Sentiu medo. O que fazer agora? Ficou muda. Ele pediu para q ela não sentisse medo, que nada faria de mal. Perguntou o nome dela. Ela tentou se desvencilhar. Ele a soltou e insistiu no nome. Ela só disse que precisava ir. Virou-se, baixou a cabeça e marchou até em casa sem olhar pra trás. Não sabe dizer quando o medo passou.
3
Por meses ela teve certeza de que o queria. A ponto de invejar a esposa. Sim, ele era casado, mas deixava claro que o relacionamento não ía bem. Viam-se todos os dias, ela ansiava pelo encontro, pela presença, embora nunca tivessem passado de olhares e gestos de carinho comprometedores, escamoteados para que os outros não percebessem. De fato, ela nunca imaginou o beijo dele, pensava e queria mesmo era o abraço. Não era algo sexual da parte dela. Da dele, era. Isso o tempo provou. O tempo provou que ela o "usou". O usou para estancar uma outra dor que vivia na época. Fez uma transferência de afeto. Mas é verdade que, embora com um "repertório" algo ingênuo e delicado, ela o tentou, o provocou, encantada com o fato de perceber nele um interesse verdadeiro. Ele, casado, manteve-se fiel, ainda que em pensamento não. Ela, de certo modo, respeitou, e não achou que ía morrer quando ele decidiu se afastar porque a esposa engravidara. Anos depois se reencontraram. Ele já separado. Finalmente, o beijo e... Decepção. Ela nada sentiu. E dali pra frente pouco aconteceria. Ele, ao contrário, fez o que pôde naquela madrugada para tornar real tanta promessa de, tanta vontade de, guardada há tempos. Gozou nas coxas dela, algo constrangido por não conter tanto tesão, algo envaidecido por demonstrar de fato que a queria muito. Na despedida, ela não olhou nos olhos dele. Nunca mais se viram.
4
Por que ele havia recuado?, ela não entendia. O carinho no dia-a-dia, a aproximação, o convite para o cinema, a parada para comer algo depois. Tudo parecia bem... quer dizer, no cinema já foi meio estranho. Por que sentar-se de lado, quase que de costas? E, enquanto comiam, por que ele não a olhava nos olhos? Aquilo não estava indo bem... Mas dessa noite nunca vai esquecer o susto dele.
Haviam se despedido, mas ela decidiu que não ía pra casa acompanhada da dúvida. Fez o retorno e voltou à casa dele. Jamais esquecerá o estrondo que veio pela linha do interfone quando o porteiro avisou quem era. Ele teria deixado cair o aparelho. Recebeu-a visivelmente atrapalhado. O apartamento vazio e os poucos móveis tornavam-no ainda mais indefeso. Não se sabe como, mas a conversa amenizou o constrangimento dele, que se recompôs, se explicou parando várias vezes para procurar as palavras certas, que não comprometessem sua virilidade, e tudo ficou como deveria ficar. Ela voltou pra casa e, quando acordou no dia seguinte, riu de tudo aquilo.
5
Ela se sentou àquela mesa por acaso. Encontro do ano da empresa, com todos os funcionários. O cara sentado a sua frente olhou-a com demora desde o primeiro instante. Nunca o vira antes, mas teve certeza de que algo aconteceria. Olhos pregados nela o tempo todo. Dias depois, ele puxou papo durante o expediente. A conversa continuou por alguns dias, e ele entregava seu interesse ao descrever cada gesto, a roupa e o cabelo dela na primeira vez em que a viu. De cidades diferentes, ele conseguiu um pretexto para que se encontrassem. Ela tinha outro compromisso, não foi. Ele não desistiu. Mais tarde, a conversa pelo telefone esquentou, ela sozinha em casa sentiu ensopar-se por um desejo de bicho da cintura para baixo. Ele pediu o endereço, ela não conseguiu dizer não. Ele chegou, entrou, conversaram sentados no chão, depois deitados. Ele disse que não aguentava mais, precisava do beijo. Os corpos se tocaram... ela sentiu a barba rala, áspera e o hálito de cerveja... algumas roupas foram despidas, mas não foram muito além... enquanto o desejo dele crescia, o dela estacionara. Era a situação, a novidade, a liberdade, o poder fazer tudo aquilo que a excitara, e não ele exatamente. Ele compreendeu que não passariam daquilo e passou a ser mais carinhoso do que viril. Ela sabia que não o queria em sua cama. Aliás, não o queria, nem na cama nem em lugar algum. Perguntou se ele se importaria que ficassem ali, no chão mesmo. Ele concordou. O dia já clareava, ela não dormiu, ele cochilou, acordou e foi embora. Dias depois enviou a ela um livro de poesias próprias com a dedicatória: "nesse mundo, nesse nosso mundo, o chão é duro, o chão até pode ser duro, mas a pele.... a pele é macia".
6
A fama de mulherengo, ela conhecia. Isso não servia para despertar seu interesse, pelo contrário. Das histórias ouvidas, achava graça, meio que a salvo, num outro nível, assistindo a tudo como bobagens de um moleque. Até que, ela não sabe quando ou em que momento, tudo mudou. A presença dele a intimidava, o olhar mexia com ela e, puxa vida, a armadilha maior: o toque era correspondido pela pele. Ele, animado com a possibilidade de mais uma conquista, ía direto ao ponto. Quando?, queria saber. Estava pronto para trair a namorada. Ela não sabe em que momento passou a pensar mais na mulher dele do que na própria vontade vinda das entranhas. Mas lembra com exatidão da vez em que o desejo foi quase insuportável. Uma carona, um abraço, as pernas trêmulas, a pelve em chamas, o não-saber-o-que-fazer. Ou saber mas não confiar. E depois?
Ela queria mais do que ele podia dar. Quando ele percebeu isso, se afastou. E o desejo dela se transformou em ansiedade, em dúvida, em espera, em questionamentos. Então... o deixar-pra-lá. Tempos depois, ele prestes a ser pai, moveu-se encantado de novo em direção a ela. Agora, era ele quem queria mais do que ela podia dar. Sem o mesmo desejo, sem o despertar da pele para desmentir, conseguiu empurrá-lo pra longe, lembrando-lhe que em casa sua mulher o esperava com um filho na barriga. E mais de uma vez o ouviu ora ansioso, ora resignado dizer: eu gosto demais de você; você sabe. Sim, ela sabe.
7
O beijo foi fácil, progressivo, natural. Ao redor, tudo se apagou e nada mais se ouviu. Os corpos se encaixaram e eles transaram como se já se conhecessem, como que brincassem, com desejo e atenção bem medidos, sem pressa. E era a primeira vez. O primeiro beijo deles, o primeiro amasso deles, a primeira noite deles juntos. Ela não gozou naquela vez (ou mesmo em outras), mas gozou a certeza de que entre um beijo e um orgasmo, no encontro de peles que se conhecem, há mais mistérios a serem descobertos e compartilhados do que se pode imaginar. Nos dias seguintes, ela ainda podia sentir o corpo dele pesando sobre o seu, o corpo dele dentro do seu, o cheiro, a voz, a textura e o quente da pele.
Ele, não se sabe o que sentiu, mas ela, finalmente, estava apaixonada.
1
Foi traição? Ah, não, que exagero. Ela nem sabia o que era isso, nem sabia que estava namorando, e o cara estava mais para desligado, "tanto-faz-como-tanto-fez" modo on, do que para namorado. Afinal, após alguns dias de namoro (mas era namoro?), ele partiu para férias em outro lugar, deixando ela pra trás. Foi então que surgiu o outro, e ela experimentou o beijo dele - mil vezes melhor do que o do deslig... ops, do "namorado". Então, o namorado voltou e, em vez de procurá-la com saudade, ficou na rede, porque o mar ele só gostava de olhar. De longe. Ela atravessou as dunas, chamou-o e acabou o namoro.
Era namoro?
Anos depois o reencontrou. Muito diferente. Fisicamente muito diferente. E ela não o reconheceu. Se deram oi quando as identidades foram descobertas. Ela continuou o que fazia, entre os amigos, um pouco impressionada com ela mesma, tão indiferente àquele passado ali, na sua frente, de carne e osso. Mais carne do que osso. A noite não acabou sem que ele levantasse a camisa e batesse na própria pança gorda, num gesto exageradamente de bem com sua vida para quem realmente pudesse estar de bem com sua vida.
2
O que aconteceria se ela conseguisse sustentar o olhar para aquele estranho no ônibus? Estava constrangida com a insistência dele, sabia que ele continuava olhando. Era noite, fazia frio e ele usava uma jaqueta de couro preta. Por muito tempo depois daquela volta para casa ela jurou sentir o cheiro daquele tecido em vários momentos.
Ele nem era bonito, mas parecia forte. Ou era a jaqueta? Ela decidiu segurar o olhar nele, sem sorrir, pra ver até onde conseguiria. Passou por ele para alcançar a porta e descer em sua parada. Sentiu o meio de sua barriga esquentar ao perceber que ele faria o mesmo. Desceu do ônibus e quis andar rápido, mas em seguida uma mão no seu braço a impediu de prosseguir. Sentiu medo. O que fazer agora? Ficou muda. Ele pediu para q ela não sentisse medo, que nada faria de mal. Perguntou o nome dela. Ela tentou se desvencilhar. Ele a soltou e insistiu no nome. Ela só disse que precisava ir. Virou-se, baixou a cabeça e marchou até em casa sem olhar pra trás. Não sabe dizer quando o medo passou.
3
Por meses ela teve certeza de que o queria. A ponto de invejar a esposa. Sim, ele era casado, mas deixava claro que o relacionamento não ía bem. Viam-se todos os dias, ela ansiava pelo encontro, pela presença, embora nunca tivessem passado de olhares e gestos de carinho comprometedores, escamoteados para que os outros não percebessem. De fato, ela nunca imaginou o beijo dele, pensava e queria mesmo era o abraço. Não era algo sexual da parte dela. Da dele, era. Isso o tempo provou. O tempo provou que ela o "usou". O usou para estancar uma outra dor que vivia na época. Fez uma transferência de afeto. Mas é verdade que, embora com um "repertório" algo ingênuo e delicado, ela o tentou, o provocou, encantada com o fato de perceber nele um interesse verdadeiro. Ele, casado, manteve-se fiel, ainda que em pensamento não. Ela, de certo modo, respeitou, e não achou que ía morrer quando ele decidiu se afastar porque a esposa engravidara. Anos depois se reencontraram. Ele já separado. Finalmente, o beijo e... Decepção. Ela nada sentiu. E dali pra frente pouco aconteceria. Ele, ao contrário, fez o que pôde naquela madrugada para tornar real tanta promessa de, tanta vontade de, guardada há tempos. Gozou nas coxas dela, algo constrangido por não conter tanto tesão, algo envaidecido por demonstrar de fato que a queria muito. Na despedida, ela não olhou nos olhos dele. Nunca mais se viram.
4
Por que ele havia recuado?, ela não entendia. O carinho no dia-a-dia, a aproximação, o convite para o cinema, a parada para comer algo depois. Tudo parecia bem... quer dizer, no cinema já foi meio estranho. Por que sentar-se de lado, quase que de costas? E, enquanto comiam, por que ele não a olhava nos olhos? Aquilo não estava indo bem... Mas dessa noite nunca vai esquecer o susto dele.
Haviam se despedido, mas ela decidiu que não ía pra casa acompanhada da dúvida. Fez o retorno e voltou à casa dele. Jamais esquecerá o estrondo que veio pela linha do interfone quando o porteiro avisou quem era. Ele teria deixado cair o aparelho. Recebeu-a visivelmente atrapalhado. O apartamento vazio e os poucos móveis tornavam-no ainda mais indefeso. Não se sabe como, mas a conversa amenizou o constrangimento dele, que se recompôs, se explicou parando várias vezes para procurar as palavras certas, que não comprometessem sua virilidade, e tudo ficou como deveria ficar. Ela voltou pra casa e, quando acordou no dia seguinte, riu de tudo aquilo.
5
Ela se sentou àquela mesa por acaso. Encontro do ano da empresa, com todos os funcionários. O cara sentado a sua frente olhou-a com demora desde o primeiro instante. Nunca o vira antes, mas teve certeza de que algo aconteceria. Olhos pregados nela o tempo todo. Dias depois, ele puxou papo durante o expediente. A conversa continuou por alguns dias, e ele entregava seu interesse ao descrever cada gesto, a roupa e o cabelo dela na primeira vez em que a viu. De cidades diferentes, ele conseguiu um pretexto para que se encontrassem. Ela tinha outro compromisso, não foi. Ele não desistiu. Mais tarde, a conversa pelo telefone esquentou, ela sozinha em casa sentiu ensopar-se por um desejo de bicho da cintura para baixo. Ele pediu o endereço, ela não conseguiu dizer não. Ele chegou, entrou, conversaram sentados no chão, depois deitados. Ele disse que não aguentava mais, precisava do beijo. Os corpos se tocaram... ela sentiu a barba rala, áspera e o hálito de cerveja... algumas roupas foram despidas, mas não foram muito além... enquanto o desejo dele crescia, o dela estacionara. Era a situação, a novidade, a liberdade, o poder fazer tudo aquilo que a excitara, e não ele exatamente. Ele compreendeu que não passariam daquilo e passou a ser mais carinhoso do que viril. Ela sabia que não o queria em sua cama. Aliás, não o queria, nem na cama nem em lugar algum. Perguntou se ele se importaria que ficassem ali, no chão mesmo. Ele concordou. O dia já clareava, ela não dormiu, ele cochilou, acordou e foi embora. Dias depois enviou a ela um livro de poesias próprias com a dedicatória: "nesse mundo, nesse nosso mundo, o chão é duro, o chão até pode ser duro, mas a pele.... a pele é macia".
6
A fama de mulherengo, ela conhecia. Isso não servia para despertar seu interesse, pelo contrário. Das histórias ouvidas, achava graça, meio que a salvo, num outro nível, assistindo a tudo como bobagens de um moleque. Até que, ela não sabe quando ou em que momento, tudo mudou. A presença dele a intimidava, o olhar mexia com ela e, puxa vida, a armadilha maior: o toque era correspondido pela pele. Ele, animado com a possibilidade de mais uma conquista, ía direto ao ponto. Quando?, queria saber. Estava pronto para trair a namorada. Ela não sabe em que momento passou a pensar mais na mulher dele do que na própria vontade vinda das entranhas. Mas lembra com exatidão da vez em que o desejo foi quase insuportável. Uma carona, um abraço, as pernas trêmulas, a pelve em chamas, o não-saber-o-que-fazer. Ou saber mas não confiar. E depois?
Ela queria mais do que ele podia dar. Quando ele percebeu isso, se afastou. E o desejo dela se transformou em ansiedade, em dúvida, em espera, em questionamentos. Então... o deixar-pra-lá. Tempos depois, ele prestes a ser pai, moveu-se encantado de novo em direção a ela. Agora, era ele quem queria mais do que ela podia dar. Sem o mesmo desejo, sem o despertar da pele para desmentir, conseguiu empurrá-lo pra longe, lembrando-lhe que em casa sua mulher o esperava com um filho na barriga. E mais de uma vez o ouviu ora ansioso, ora resignado dizer: eu gosto demais de você; você sabe. Sim, ela sabe.
7
O beijo foi fácil, progressivo, natural. Ao redor, tudo se apagou e nada mais se ouviu. Os corpos se encaixaram e eles transaram como se já se conhecessem, como que brincassem, com desejo e atenção bem medidos, sem pressa. E era a primeira vez. O primeiro beijo deles, o primeiro amasso deles, a primeira noite deles juntos. Ela não gozou naquela vez (ou mesmo em outras), mas gozou a certeza de que entre um beijo e um orgasmo, no encontro de peles que se conhecem, há mais mistérios a serem descobertos e compartilhados do que se pode imaginar. Nos dias seguintes, ela ainda podia sentir o corpo dele pesando sobre o seu, o corpo dele dentro do seu, o cheiro, a voz, a textura e o quente da pele.
Ele, não se sabe o que sentiu, mas ela, finalmente, estava apaixonada.
05 maio 2010
Roubos (2)
"... de todos os chacras, o mais perigoso de ser desperto prematuramente é o chacra básico, sede do kundalíneo ou do fogo serpentino, pois sem a garantia de uma boa graduação espiritual, o homem que o "abrir" perde-lhe o domínio ante o primeiro controle emotivo ou mental em desfavor alheio... (...) Trata-se de energia violenta e agressiva, embora criadora, que em fuga atinge maleficamente o perispírito e alucina-lhe as células perispirituais... (...)
O chacra básico ou fundamental se situa na base da espinha dorsal, conhecido pelos hindus como o chacra kundalíneo, centro etérico responsável pelo fluxo das energias poderosas que emanam do Sol e da intimidade da Terra, a energia mãe da terra. Segundo ensinamento hindu, o kundalíneo proporciona a libertação do ser, quando habilmente controlado pelo chacra básico, feito por espírito equilibrado, sem vícios ou paixões perigosas, despreocupado dos tesouros e poderes das vaidades do mundo carnal..."
roubado do livro "Elucidações do Além", de Ramatís.
por que "roubar"? aqui.
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