E vem aí mais uma Grafia, e o tema desta edição é terror. Daí que me dei conta de que nunca escrevi aqui no bLOg sobre terror.
Porque tem texto daqui que vai pra Grafia, e dessa vez tem de ir mais um. Gostaria que sim. Só que... acabei de dizer... nunca escrevi sobre terror. Não gosto de filme de terror, tenho medo. A coisa toda me lembrou uma amiga que não vejo há muito tempo: ela ri de gargalhar quando assiste a filmes de terror. A invejo terrivelmente. Mas não... o comportamento de minha amiga não me rendeu um texto...
Aí o meu amigo que faz a Grafia disse que medo faz parte, a questão é sentir prazer no medo. Bom, então não sinto prazer no medo. Vai um abraço pra quem sente.
Mas sinto prazer em ver texto meu na Grafia, porque a Grafia é bonitona. Então... vamos tentar, eu disse. Ou seja, abri a portinha da boa vontade.
(conhece a portinha da boa vontade? ela fica na cabeça, mas seu efeito se espalha pelo corpo, deixa tudo mais alerta, no sentido de sensível a. Abre a porta lá e escancara as basculantes da percepção aqui e acolá, como se deixasse entrar luz, aquecendo nosso motorzinho íntimo que põe a funcionar a engrenagem da criatividade, aquela que soluciona as coisas.)
Deixei a portinha aberta e saí por aí. Pendurei a pendência no meu varal mental e deixei o vento sacudir, tipo aquelas bandeirinhas de templo budista, sabe? Daí que no mesmo dia em que deixei a portinha aberta, logo mais à noite, testemunhei as duas primeiras situações descritas abaixo, e entendi que tinha uma ideia de texto: listar horrores cotidianos... A lista não tem nenhum critério, alguns itens são bem questionáveis, outros oscilam numa, digamos, escala de horror.
Mas terror é o mesmo que horror? Terror é a coisa, horror é a sensação fruto da coisa. Não? Ah, sei lá... não complica aí, srGrafia. Ou vai ficar sem texto. E eu sem prazer.
TEXTO
Show de horror
> Tentar atravessar de carro alguma das vias centrais da cidade, em dia de jogo do Grêmio ou do Inter, às sete da noite - no rádio, não tem nem música, porque é hora da Voz do Brasil.
> Assistir a uma briga de trânsito bem de perto.
> Pisar no coco.
> Ver quem vc queria pra junto de si escolher outra pessoa.
> Programa eleitoral gratuito.
> Tentar fazer qualquer coisa com os olhos estando com dor de cabeça.
> O BIG ou o Carrefour no sábado à tarde, na véspera de Natal.
> Geladeira vazia.
> Fossa de amigo.
> A tua fossa.
> Ressaca etílica com efeitos gastrointestinais.
> Cofrinhos de fora.
> Retorno da praia, estrada engarrafada, sol na cara, carro sem ar, 40 graus.
> Pedalar contra o vento.
> série A4 de natação.
> Homens/mulheres que dizem "sabe quem eu tô pegando?"
> Acampamento farroupilha com chuvarada.
> Ligação de telemarketing.
> Tentar resolver algum problema com a Net.
> Pelego (a coisa e a pessoa).
> editorial de jornal de esquerda.
> editorial de jornal de direita.
> gente que ainda vê o mundo dividido.
> Carnaval de clube. No litoral. Gaúcho.
> Programação de TV aberta no domingo à tarde.
> Sotaques em novelas.
> RT de elogio, no twitter.
> Vídeo que não carrega.
> Conexão lenta.
> Mau hálito.
> Limpador de para-brisa que não dá vencimento.
> Separar sujeito e verbo com vírgula.
> gente que não contente em usar um ! usa 3, 4... !!!!!
> Correr de bermudão.
> Sanitário ecológico em fim de show.
> Derramamento de óleo no mar.
> Baleias encalhadas morrendo.
> Listas em geral.
***
Voltando à portinha da boa vontade.
Se ela estiver aberta, dificilmente as coisas descritas aqui (ou tantas outras, vc não pensou em algumas?), embora terríveis, nos causam tanto horror assim... Dá até pra gargalhar, como faz minha amiga. Mas em alguns casos, tem de escancarar bem essa porta da boa vontade, tah? Esgamela o negócio aeeeee.
17 setembro 2010
14 setembro 2010
Salário máximo
Trechos da entrevista com Carlos Ribeiro, ex-presidente da HP Brasil, na TRIP 192.
"Já estava há oito anos na presidência e percebia que não estava mais no máximo do meu pique de criatividade."
" Minha ideia inicial era me aposentar em 2009, 2010. Mas a morte do meu pai, em agosto de 2005, fez com que eu antecipasse isso. Eu estava no velório dele e me deu um estalo. Pensei: “O que eu estou esperando?"
"É claro que abri mão de muitas coisas, né? Mas também me livrei de um monte de coisas chatas. Claro que eu poderia estar ganhando muito mais do que agora, com a aposentadoria e o fundo de pensão. A gente tem que viver de reservas. Mas felizmente conseguimos poupar o suficiente para montar essa estrutura e levar a vida que a gente quer."
"A gente sempre procurou separar bem isso: o que eu era de verdade e o papel que eu tinha de interpretar, ou seja, o de um presidente de uma grande empresa pelo qual eu era remunerado. Eu participava desses eventos com empresários. Mas aquilo não era o meu natural. Até porque sou mais introvertido. Nesses eventos há um certo artificialismo. Sempre soube que aquilo um dia ia acabar."
Deu para entender mais ou menos, neh? Ele largou um supercargo para viver de forma mais simples no campo e tal.
É claro que tomar essa decisão parece mais fácil quando temos uma grana considerável de reserva/economia. Caso dele. Mas quem ler a entrevista na íntegra vai ver que ele só tomou essa decisão efetivamente depois de levar umas porradas emocionais.
Pensei duas coisas ao ler essa entrevista:
1) É muito difícil saber a hora de mudar, de parar, de baixar a rotação sem essas porradas. Precisamos de um nível tal de sintonia com a vida que... nossa. Coisa de monge.
2) Lembrei também que devíamos todos saber a hora de parar de ganhar dinheiro. Não vejo as pessoas refletirem sobre isso. Seu teto, sabe? Uma vez conversava com um amigo sobre isso, na volta da praia, pela freeway (ele costumava me ler aqui, será que continua? tu taí? lembra disso?). Falávamos sobre isso: qual teu teto salarial? Eu falava, na verdade. Com quanto tu acha que poderia viver tranquilamente?
Não vejo as pessoas pensarem nesse valor. Vejo pessoas querendo ganhar mais e criando novas necessidades para justificar esses mais.
Sei que as coisas são relativas, e que o que importa mesmo é a intenção das coisas; então uma mesma coisa pode ser prejudicial ou saudável dependendo da intenção da pessoa, mas eu realmente acho que conhecer nosso salário máximo é tão importante quanto garantir um salário mínimo decente pra todos.
"Já estava há oito anos na presidência e percebia que não estava mais no máximo do meu pique de criatividade."
" Minha ideia inicial era me aposentar em 2009, 2010. Mas a morte do meu pai, em agosto de 2005, fez com que eu antecipasse isso. Eu estava no velório dele e me deu um estalo. Pensei: “O que eu estou esperando?"
"É claro que abri mão de muitas coisas, né? Mas também me livrei de um monte de coisas chatas. Claro que eu poderia estar ganhando muito mais do que agora, com a aposentadoria e o fundo de pensão. A gente tem que viver de reservas. Mas felizmente conseguimos poupar o suficiente para montar essa estrutura e levar a vida que a gente quer."
"A gente sempre procurou separar bem isso: o que eu era de verdade e o papel que eu tinha de interpretar, ou seja, o de um presidente de uma grande empresa pelo qual eu era remunerado. Eu participava desses eventos com empresários. Mas aquilo não era o meu natural. Até porque sou mais introvertido. Nesses eventos há um certo artificialismo. Sempre soube que aquilo um dia ia acabar."
Deu para entender mais ou menos, neh? Ele largou um supercargo para viver de forma mais simples no campo e tal.
É claro que tomar essa decisão parece mais fácil quando temos uma grana considerável de reserva/economia. Caso dele. Mas quem ler a entrevista na íntegra vai ver que ele só tomou essa decisão efetivamente depois de levar umas porradas emocionais.
Pensei duas coisas ao ler essa entrevista:
1) É muito difícil saber a hora de mudar, de parar, de baixar a rotação sem essas porradas. Precisamos de um nível tal de sintonia com a vida que... nossa. Coisa de monge.
2) Lembrei também que devíamos todos saber a hora de parar de ganhar dinheiro. Não vejo as pessoas refletirem sobre isso. Seu teto, sabe? Uma vez conversava com um amigo sobre isso, na volta da praia, pela freeway (ele costumava me ler aqui, será que continua? tu taí? lembra disso?). Falávamos sobre isso: qual teu teto salarial? Eu falava, na verdade. Com quanto tu acha que poderia viver tranquilamente?
Não vejo as pessoas pensarem nesse valor. Vejo pessoas querendo ganhar mais e criando novas necessidades para justificar esses mais.
Sei que as coisas são relativas, e que o que importa mesmo é a intenção das coisas; então uma mesma coisa pode ser prejudicial ou saudável dependendo da intenção da pessoa, mas eu realmente acho que conhecer nosso salário máximo é tão importante quanto garantir um salário mínimo decente pra todos.
26 julho 2010
título? ainda não sei
prontidão.
presença.
boa vontade.
coragem.
(ou assim)
prontidão. presença. boa vontade. coragem.
(ou assim)
coragem.
prontidão.
presença.
boa vontade.
(ou...)
boa vontade e coragem. (ou) coragem e boa vontade
prontidão e presença. (ou) presença e prontidão.
(ou...)
prontidão = presença? ou seria = à coragem?
boa vontade (para ter...) prontidão e/ou presença?
(não consigo ter certeza. Da ordem. Do que origina o quê. O que é causa do quê. O que é efeito do quê. O que é prêmio/recompensa do quê. Se todos se equivalem ou se são progressivos, como degraus de uma escada. No topo da escada? Uma atitude. Um gesto. Uma ação. É claro que realizamos centenas de milhares de ações sem nenhuma dessas prerrogativas... o ponto é esse. Quando uma ação/atitude tem valor?)
post em aberto... talvez eu volte aqui mais tarde...
não consigo terminar. Acho que foi o vinho.
presença.
boa vontade.
coragem.
(ou assim)
prontidão. presença. boa vontade. coragem.
(ou assim)
coragem.
prontidão.
presença.
boa vontade.
(ou...)
boa vontade e coragem. (ou) coragem e boa vontade
prontidão e presença. (ou) presença e prontidão.
(ou...)
prontidão = presença? ou seria = à coragem?
boa vontade (para ter...) prontidão e/ou presença?
(não consigo ter certeza. Da ordem. Do que origina o quê. O que é causa do quê. O que é efeito do quê. O que é prêmio/recompensa do quê. Se todos se equivalem ou se são progressivos, como degraus de uma escada. No topo da escada? Uma atitude. Um gesto. Uma ação. É claro que realizamos centenas de milhares de ações sem nenhuma dessas prerrogativas... o ponto é esse. Quando uma ação/atitude tem valor?)
post em aberto... talvez eu volte aqui mais tarde...
não consigo terminar. Acho que foi o vinho.
23 junho 2010
Roubos (3)
"Tudo o que fiz nestes últimos anos (nestes últimos anos apenas? Não é desde sempre?) me interessou, mas não era nunca o que me interessava mais. (...) Esta cegueira de mim mesmo, de meu "ser profundo", foi alimentada, ampliada, pela dispersão nas coisas secundárias. (...) A ideia do número um - do essencial - hoje me parece um pouco falsa. Há um essencial do qual, digamos, há vinte anos eu fugi? A verdade é que me deixei levar demais por coisas secundárias; eu me vi na teia de relações semiprofissionais, semi-amigáveis; dispersei-me. (...) O que significa meu desejo de tornar-me "profundo'? (...) Pois é, eu queria ser ao mesmo tempo o monge meditativo em sua cela e o grande viajante intercontinental, o revolucionário chama-ardente-do-futuro e o eremita contemplativo do eterno, o asceta e o luxurioso."
Edgar Morin... euhein?! Pois é... leituras pretensiosas... menos, menos.
Eu gosto mesmo é de ler horóscopo.
roubado do livro "X da Questão", de Edgar Morin. Por que "roubar"? Aqui.
Edgar Morin... euhein?! Pois é... leituras pretensiosas... menos, menos.
Eu gosto mesmo é de ler horóscopo.
19 junho 2010
Cutuco x modus operandi
A bonita capa da ZH de hoje me lembrou algumas coisas, entre elas, o fato de eu gostar das edições de sábado dos jornais.Talvez porque grande parte dos jornais reserve o sábado para os cadernos de Cultura. Mas isso poderia parecer pretensioso de minha parte. Adoro viajar na maionese com os cadernos de cultura dos jornais, mas é verdade que há muito tempo não os leio. Suspeito, inclusive, que eles nem sejam mais esses passaportes para viagens na maionese.
Talvez eu goste das edições de sábado porque as manhãs de sábado são preguiçosas, quando o tempo passa diferente, e assim ler não precisa ser rápido. Mas as de domingo também o são, e não gosto tanto dos jornais de domingo como gosto dos jornais de sábado. E eu nem poderia dizer que os jornais de sábado são edições melhores, porque não são. Sei bem como são feitas na sexta-feira. A toque de caixa, apenas para constar, preocupados que estão todos com as matérias especiais do jornal de domingo - que, aliás, começa a circular na cidade nas tardes de sábado, outro fator que denota a (nenhuma) importância que as pessoas dão para as edições de sábado, com um tempo de vida tão curto.
Talvez eu tenha lembrado que eu gosto dos jornais de sábado porque hoje chove muito em Porto Alegre, e há um prazer muito próprio em ler um jornal com a chuva lá fora e uma caneca de café aqui dentro. Enfim.
Então... a edição de sábado está fadada ao esquecimento não fossem os fatos. E não foram poucas as vezes que eles teimaram em acontecer para revirar a rotinas das redações nas sextas-feiras. Como ontem, na morte do Saramago. E aí temos essa bonita capa de ZH.
E isso me fez lembrar como o jornalismo pode ser desconsertante do ponto de vista humano: é justamente na perda, na dor, no fato que ninguém desejaria que acontecesse, é justamente aí que ele se valoriza, se renova, se faz necessário (ou se acha que se faz necessário...). Quer belas capas de jornais? Pense numa tragédia.
Desconfortável, não?
Eu ainda acho que os critérios que definem o que é apenas um fato e o que é um fato e também uma notícia deveriam ser repensados. Tenho uma vaga lembrança de um xerox lido durante o curso de jornalismo, cujo texto abordava os critérios para definir o que é notícia. Não consigo lembrar de todos - putz! - mas morte estava lá. Minha vaga lembrança permite, ainda, dizer que se tratava de um texto já velho para a época. Tipo início do século 20.
Para mim, é incrível que os jornais, a grosso modo, continuem a noticiar se valendo de critérios tão antigos. E não sei se é consciente. Parece que apenas não se mexe nessa "instituição" - quando todo o resto da vida já questionou e continua a questionar todas as "verdades".
Por que uma boa notícia, algo que nos faça sorrir, que nos inspire, tem peso menor nas páginas de jornais (e no interesse dos leitores)? Não sei. Eu até acho que um jornal se diferencia de outro quando justamente define o que vai ser notícia na sua edição do dia seguinte usando a intuição: um pé aqui, na "instituição", e outro lá, na vida invisível-mutante. Sensibilidade. Mas há espaço - e tempo - para sensibilidades no jornalismo diário? (talvez nas edições de sábado... rsrsr)
Mas o que eu queria dizer - coisa que a capa de hoje, com Saramago, me lembrou - é que posso imaginar a vibe que (no mínimo) por instantes a redação experimentou ontem, sexta, ao saber da morte do escritor. Planejamentos caíram, outros precisaram ser feitos. Mudanças de rumos, e rapidamente.
E isso é jornalismo: vibrar com os fatos. E é desconsertante porque, daqui a pouco, tu, jornalista, sem perceber, está vibrando na redação, eufórico, por causa de uma tragédia. Vi isso, e acho que senti isso, várias vezes, até me dar conta de que eu estava quase feliz (?) diante a possibilidade de um grande texto, diante uma grande foto, diante uma grande página, uma grande capa e uma grande edição baseadas... numa tragédia, na dor, numa morte, numa perda...
Claro, não se trata exatamente do fato que envolveu Saramago, um senhor que já tinha lá uma considerável idade... E morte, como bem sugeriu ele em seus livros, faz parte (ou não, como em Intermitências da Morte, um livro que achei tão chato que não acabei).
Mas é que lembrei do que pensei quando acompanhava a cobertura jornalística dos desabamentos no Rio ou do terremoto do Haiti. Os jornais tiveram assunto até não poder mais, o que alivia muito os pauteiros (quando um fato se impõe, vc não precisa inventar pauta. Quer dizer, se vc conseguir surpreender nessa hora, bem, vc é diferenciado, porque a rigor não precisa se "puxar"; os fatos garantem as edições).
Especialmente na tragédia do morro do Bumba, fiquei pensando na caravana de repórteres que para lá se deslocava todos os dias. TODOS os telejornais da Globo, só para citar UMA emissora, colocavam gente lá. Chegou uma hora em que ficou claro que o número de jornalistas era maior do que as notícias, e as informações se repetiam, e a tragédia era espremida até não poder mais. Então, eu pensei: nenhum jornalista sentiu vontade de AJUDAR aquelas pessoas, ao invés de ficar repetindo pruma câmera mais do mesmo? Será que nenhuma emissora, nenhuma redação repensou seu papel naquele momento?
Eu penso isso porque tenho certeza de que o jornalismo moderno ("imparcial", das megas corporações) provoca um (d)efeito colateral bastante questionável ao profissional que atua nele: o modus operandi de eterno espectador, de alguém que sempre se coloca à parte do fato, para poder contá-lo/registrá-lo, sem se envolver, a salvo dos erros, das dificuldades, das dores de quem VIVE os fatos e está efetivamente dentro deles.
Haverá um momento que essa capacidade humana fará falta à vida dele. A vida íntima dele mesmo, longe das redações. A menos que ele não se importe de confundir/mimetizar para sempre sua vida com o papel construído nas redações/na profissão, que o protege da (sua) vida real.
Agora na Copa do Mundo, outro exemplo. Mesma sensação: jornalistas batendo cabeça, de tantos que são num evento que não gera tantos fatos assim - mas será que não gera? Ou é de novo o modus operandi?
E dá-lhe Dunga fechando treino, piorando tudo. Vuvuzelas, jabulani, cala a boca Galvão. Deu né? Qual o papel de um jornalista na Copa?
Você não fica com a sensação de que, por tudo o que foi mostrado até aqui, não precisava tanta gente lá? Textos-crônica, show de imagens.... precisava ter ido lá pra isso? E o pior é quando eles fazem da presença deles lá, ou da parafernália tecnológica disponível, a notícia em si. Oi? Jornalista entrevistando jornalista. Oi? E essa tendência de apresentar as coisas em tom coloquial, em primeira pessoa, como se fosse um blog ou um orkut? E essa tendência tadeu-schmidt de descrever partidas?
Acho que tem espaço para tudo, o problema é quando o "diferencial" vira regra. Daqui a pouco o diferente vai ser o formalismo. O jeito voz-do-brasil-de-ser vai virar cult.
E aí fiquei pensando também num fato que foi noticiado com questionável economia nessa Copa: a morte da neta do Mandela. Putaqueopariu. O cara é um personagem-símbolo do país que sedia a Copa, por quatro anos se espera por isso, e aí no dia da abertura do evento a neta do cara MORRE num acidente de carro na saída da festa, e isso é menos relevante do que as imagens do Black Eyed Peas no palco!??!?
Ó, não é o caso de, aqui, morte ser critério para um fato virar notícia. Só penso que... Assim, do contato que tive e tenho com o jornalismo, guardo essa impressão, na qual confio: há algum potencial de notícia, de BOA história que precisa ser conferido em todo fato ou aspecto de um fato que parece "fora do lugar", que causa estranhamento...
O que não pode é, eu, jornalista que noticiei a goleada da Argentina, fiz piada com as vuvuzelas, analisei a derrota da Alemanha etc, na hora do cafezinho com os colegas ou quando tô indo embora pra casa, descansar, ver brotar em mim esse pensamento: "e a neta do Mandela, hein?".
E digo mais: se algum leitor/espectador viu essa inquietação brotar em si, sem encontrar resposta, o jornalismo/a imprensa perdeu a chance de se revalorizar frente a essa audiência.
Enfim.
Se esse pensamento/sensação brota, ainda que de forma bem sutil, pode ter certeza de que algo ali merecia atenção.
Nem toda sensação como essa gera uma grande notícia, uma grande história, mas toda notícia que faz diferença, que tem relevância numa edição começa com um cutuco assim.
Mas eu sei: é difícil sair do modus operandi.
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